Lá está papai, no final do dia, sentando em frente à televisão, vendo Jornal Nacional. Às vezes ele dorme, diz que é o Lexotan dele. Na mão direita um suco para acompanhar o jantar sempre frugal. Ao contrário de tudo que sempre defendeu. Nada de líquidos nas refeições. Diz com ternura, é só um pouquinho ( só um pouquinho, que ninguém é de ferro ). Eu aprendi e por hábito jamais tomei líquido nas refeições. Crenças fortalecedores de pai para filha.
Quando sofro de excessos de honestidade,vestindo a carapuça (ou a toga) da mulher de César – a quem não bastava ser honesta,ela também tinha que parecer honesta - ,explico às pessoas: “É que sou filha do papai”. Uma espécie de lei de Gérson ao contrário: é preciso não levar vantagem em nada. A vantagem é para espertos. E a esperteza não é algo nada louvável. Ele sempre deixou claro que há um jeito certo de sair do mundo, seja qual for o caminho e a distância. Essa coisa estranha e meio em desuso chamada honestidade. E ele se irrita com o noticiário, com a desonestidade pública,oficializada, impune. Mas não deixa de acompanhar o noticiário,mesmo quando decreta a sua tristeza diante dos fatos. Falta de esperança jamais, ele sempre acredita na mudança do ser humano.
Tudo isso envereda pelo campo da generosidade – essa generosidade que acolhe galinhas herdados do quintal da neta, netos travessos, todas as nossas cabeçadas que a gente andou dando por aí e que nunca foram julgadas e condenadas,a generosidade das comidas segundo o gosto de cada um, hilário fazer supermercado com ele nestes momentos. Nada combina com nada e tudo combina com todos. Da conta do restaurante que ele vai pagar às escondidas antes que a gente perceba. Os dinheiros que ele empresta e os pagamentos que ele depois não aceita receber. Lá está ele assoviando enquanto a noite cai.
Todo preocupado em acertar as palavras e gestos com minha mãe, com quem é casado há 45 anos e terminantemente implicante e afável. Gentil com ela.Gentil conosco.Gentil com as pessoas por aí, na rua, e até mesmo com quem não merece gentileza. Gentil com o noticiário que o decepciona dia após dia e ao qual ele continua concedendo sua atenção. Gentil com um mundo que te arestas duras e um status quo de injustiça,inóspito para velhos, para bichos,para crianças, para justos – inóspito,ponto. Gentileza gera gentileza,como dizia o profeta Gentileza. Generosidade gera generosidade? Honestidade gera honestidade?
Lá está ele assoviando ao cair da noite, entre horas, entre pensamentos, entre uma louça na pia e outra.
Todas essas coisas que ele sempre é,veementemente,são um pouco aquilo que espero do mundo,ingênua ou não. Não me dou com os espertinho, e sei onde moram e como se veste. Convivo com eles apesar dos pesares. Não suporto levar vantagem.Tenho medo da ambição que corrompe amizades e da indelicadeza que corrói amores. Prefiro acreditar e viver pela prosperidade humana integral e mútua. De tempos em tempos a gente desaba nas esquinas porque,como eu e minhas irmãs às vezes comentamos,as pessoas não são como ele,e temos o hábito de achar que são. O desvio dessa norma nos leva às lágrimas,as decepções são horríveis,o fim do mundo parece bem mais próximo nestas horas de aquecimento global e frieza carnal. Mas continuamos confiando nas relações humanas, como regra máxima das regras. Continuamos acompanhando o noticiário, os desdobramentos da vida.Como ele nos ensinou a fazer.Sorrindo e assoviando para a vida.
Com certeza seu Pai é um grande homem, vc é a prova viva!!!A leveza está em perceber que as coisas mudam o tempo todo, e que o desapego é o segredo para o bom funcionamento do "si mesmo"!!!Àquele(a) que se desapega vive em plena saúde!O apego adoece!!!Bjs e muita Paz!Lindo seu texto!!!
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