2 de outubro de 2014

Uma compreensão não metafísica dos seres humanos


Os seres humanos, reiteramos, não possuem um ser pronto, fixo, imutável. Ser humano é estar em um processo permanente de vir a ser, de inventarmos, e reinventarmos dentro de uma deriva histórica. Não sabemos o que somos, e também não sabemos o que poderemos vir a ser. Como escreveu Shakespeare: “sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderíamos ser.” Nossos seres indeterminados, é um espaço aberto apontado para o futuro.

Uma compreensão ontológica de nós mesmos, nunca pode nos dar uma resposta concreta e determinada à pergunta do que significa ser humano. Nosso ser é um campo aberto ao projeto. O que uma aproximação ontológica pode nos entregar, são algumas distinções gerais que servem como parâmetros para definir uma estrutura básica de possibilidade neste processo aberto do vir a ser. Não pode prover nem mais, nem menos que isso.



Esta estrutura geral de possibilidades que partilhamos todos os seres humanos, é o que Martin Heidegger chamou “Dasein”, o “ser no mundo” que somos. Ontologia é a indagação de Dasein. A filosofia de Heidegger nos proveu um importante ponto de saída. No entanto, foi só mais tarde em seu desenvolvimento intelectual, quando a maior parte de seu trabalho ontológico já estava feito, que Heidegger se abriu ao reconhecimento de que para entender o que significa ser humano, devemos recorrer a linguagem. Os seres humanos, reconheceu Heidegger, habitam na linguagem.
Talvez os dois filósofos mais importantes que viram desta maneira a alma humana, tenham sido Heráclito e Nietzsche. Heráclito viveu na Grécia antiga muito antes do surgimento dos metafísicos.

Quando lemos a Platão e Aristóteles, percebemos de que tinham como seu principal componente a Heráclito. A metafísica, de alguma maneira, foi uma tentativa de provar que Heráclito estava errado. Se queremos superá-la, pode ser que tenhamos que voltar a seus ensinamentos.

Nietzsche foi considerado por muito tempo uma espécie de terapia filosófica, um proscrito, um pensador sacrílego, um iconoclasta. Poucas pessoas entenderam realmente o que ele queria dizer. Muitos pensaram que Nietzsche se contradizia com freqüência.Ele chegou à filosofia através da filologia, uma disciplina que se interessa pela linguagem, pelo estudo das línguas e a literatura dos antigos gregos e romanos.

Isto lhe permitiu contatar-se desde cedo com o trabalho dos pre-socráticos, os filósofos que viveram antes de Sócrates, Platão e Aristóteles. Uma vez que Nietzsche tomou contato com o pensamento de Heráclito, compreendeu que nele estava presente uma perspectiva totalmente diferente da que oferecia o programa metafísico. Declarou a Heráclito, seu mentor.

Tanto Heráclito como Nietzsche entenderam que para compreender os seres humanos, não podemos concentrarmos somente em seu “ser”, mais também devemos olhar para o que são, para o espaço no qual se transcendem as formas atuais de ser e de participar do processo do vir a ser. Neste processo do vir a ser se requer dar importância tanto ao ser como ao não ser, a este ciclo que reúne o ser e o nada, esta eterna passagem do um e do outro. Ser humano, segundo Nietzsche, pode ser visto como um processo no qual estamos permanentemente fugindo do nada, enquanto que, ao mesmo tempo, somos impulsionados para o nada, para o sem sentido de nossas vidas, e induzidos à necessidade de recriarmos constantemente um sentido.


Estamos, como disse Heráclito, num processo de fluxo constante, nunca permanecendo iguais, mudando continuamente como faz um rio. E como um rio, não podemos compreender como somos, se somente nos concentrarmos em nosso lado do ser. Um rio sempre envolve esta tensão entre o cheio e o vazio, entre o ser e o não ser. Se somente nos detivermos no cheio, já não temos um rio, mais sim um lago, um estanque ou inclusive um pântano. Se somente nos fixarmos no vazio, também deixamos de ter um rio, temos agora um canal seco, sem movimentos, sem vida própria.

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